Desde o começo do ano eu venho acompanhando um punhado de matérias e artigos  sobre o cenário atual de publicações científicas que estão sendo publicados pelos principais jornais e revistas da Europa. O periódico britânico The Guardian  foi um dos primeiros a tornar pública uma reportagem criticando o mercado oligopolizado de publicações acadêmicas , onde poucas editoras dominam o processo de publicação e cobram um alto pedágio pelo acesso aos conteúdos de pesquisas. Em seguida, foi a vez da conservadora The Economist constatar os riscos que as próprias editoras estavam correndo devido a um eminente boicote que estava sendo organizando pela comunidade acadêmica – alguns pesquisadores estavam até chamando esse movimento de primavera científica, em alusão as manifestações que ocorrreram nos países árabes.

A grande questão para o debate é que o processo científico é controverso por si só. A maior parte das pesquisas, tanto no Brasil como em outros países, é financiada por órgãos de fomento ligado ao Governo. Isso significa que quase a totalidade das pesquisas acadêmicas, salvo algumas que são patrocinadas por instituições privadas, é arcada com dinheiro público. Até aqui não vejo nenhum problema, afinal é obrigação do Estado fornecer recursos para o desenvolvimento científico e tecnológico dentro do seu país – de alguma forma isso poderá ser importante para o processo de inovação e crescimento da nação (importante ler sobre a complexidade econômica).

O desconforto começa quando os pesquisadores precisam publicar os resultados de seus trabalhos. No meio acadêmico, para que uma pesquisa tenha o seu reconhecido valor científico, ela precisa ser publicada e revisada entre pares. Não basta um pesquisador chegar a algum resultado, ele precisa compartilhá-lo com a comunidade científica e receber o aval de seus colegas. O processo comum na atualidade é o pesquisador escreve um artigo sobre a sua pesquisa e submeter para publicação em uma revista científica. O conteúdo passa por um processo chamado double-blind review, no qual o revisor não sabe quem escreveu o artigo e quem escreveu o artigo não sabe quem é o revisor, e uma vez que o artigo tenha sido aprovado, ele é então publicado.

É nessa fase do processo que o problema se tornar ainda mais grave, já que boa parte dessas revistas e periódicos científicas, que pertence a um grupo limitado de empresas – só a Elsevier é dona de mais de duas mil revistas, por exemplo -, começa a cobrar pelo acesso aos conteúdos publicados. Em outras palavras, uma pesquisa que teve o seu projeto originalmente financiado com dinheiro público passa agora  a ser tratada com uma mercadoria por empresas privadas. Quem quiser ler, tem que pagar, e o preço praticado não é barato. Um artigo da revista Cell, por exemplo, custa mais de 30 dólares.

Na semana passada, entretanto, uma decisão do governo britânico fez com que a ciência aberta vencesse a sua primeira batalha contra as grandes editoras. Em um anúncio oficial, o Ministro de Ciências, David Willets afirmou que um novo sistema de financiamento deverá ser implantado até 2014, quando qualquer pesquisa que vier a utilizar dinheiro público para a sua realização não poderá mais trancar os seus resultados por meio de um processo de publicação comercial. Essa decisão pode abrir um novo caminho para que outros países sigam a mesma estratégia. Mas além de uma decisão top-down por parte dos governos, eu penso que também seja preciso que a comunidade acadêmica busque uma nova posição para o processo de comunicação da ciência.

Os cientistas, pesquisadores e acadêmicos devem pensar em criar modelos alternativos de publicação. O processo de revisão entre pares ainda é obrigatório para que uma pesquisa tenha o seu valor científico, mas em uma época onde a colaboração e a descentralização estão se tornando processos produtivos da economia global, é difícil aceitar que a comunidade acadêmica inteira esteja dependente de instituições privadas para organizar os seus recursos e processos. As grandes editoras não fazem nada além de pegar uma pesquisa conduzida por um cientista, solicitar a revisão de outro e publicá-la como se fosse um produto exclusivamente seu.

Esse cenário é decorrente de uma posição implícita e indireta da própria sociedade científica. Se alguém deseja se tornar um pesquisador conceituado, não pode simplesmente publicar o seu artigo em qualquer revista, tem que buscar periódicos bem qualificados, que são de propriedades de empresas privadas que visam o lucro como o seu único objetivo. As grandes revistas acadêmicas não passam de um conjunto de intermediários e atravessadores sem qualquer função social.

É importante que a comunidade entenda que ela não depende das grandes corporações para ter um processo de publicação confiável. O mesmo pesquisador que participa de uma revisão entre pares e concede  a permissão para que uma pesquisa seja publicada em uma revista Qualis A – qualificação de mais alto nível utilizada pela CAPES – é o mesmo que está presente na estrutura horizontal da ciência. Por que, então, não construir um modelo participativo e colaborativo dentro da academia?

Eu tenho certeza que essa é uma alternativa viável, mas isso requer mudanças na mentalidade e na postura dos próprios pesquisadores, que devem abandonar uma posição preconceituosa em relação aos processos colaborativos para poderem adotar modelos menos triviais, mas capazes de conduzir a ciência por um caminho mais aberto e participativo. Estamos passando por um momento de transição, e propostas e movimentos, como o projeto Open Science, conduzido pela Open Knowledge Foundationpode ter um importate papel para o progresso científico.

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